Mundo MHD

ENTREVISTA DE AVALIAÇÃO DE SOBRECARGA, SENTIDO E SINTOMAS EMOCIONAIS

Criado por mim agora no comecinho de agosto/2026 (segunda semana de agosto), essa entrevista foi desenvolvido a partir de uma demanda clínica concreta: a necessidade de um instrumento de rastreio que fosse além dos sintomas tradicionais e capturasse também a sobrecarga psicossocial, a perda de sentido e as condições concretas de vida das pessoas atendidas.

O nome é grande, eu sei: Entrevista de Avaliação de Sobrecarga, Sentido e Sintomas Emocionais. Mas ele foi criado para avaliar justamente isso, então ainda não é um nome oficial, embora eu goste da sigla que se formou a partir desse nome gigantesco - EASSSE 😂 é muito S numa sigla só né?! Mas o nome é totalmente provisório, um detalhe, apenas um detalhe.

Talvez já exista algo do tipo circulando por aí, mas não achei ou não soube procurar direito.

Será que isso tudo é uma anamnese e eu não tô sabendo nomear? Admito que eu não tenho certeza de nada, mas estou interessada em descobrir.

Caso você saiba de algo do tipo, me mada email? Tem um espacinho pra isso no final das postagens :)

Essa aqui surgiu a partir da produção de um texto escrito por uma das minhas atendidas mais recentes, estamos ainda no primeiro mês de psicoterapia e na exploração inicial das suas demanadas.

Quando um processo de psicoterapia começa eu sempre gosto de propor a construção de um diário (ou esporádicos como eu gosto de chamar1) ou pelo menos uma tentativa adaptada àquilo que a pessoa está me trazendo.

Sou do time de psicólogas que sempre quer trazer a arte pra sessão, sempre respeitando a disposição da pessoa é claro. Imagina quão grande a minha surpresa (e animação) ao ver a pessoa construir um texto inteiro recheado de vivências significativas ao seu processo!

Logo reconheci a aptidão para a escrita na minha atendida e compartilhei com ela minhas impressões, tanto pessoais, pois eu mesma tenho muito interesse nisso e uso a escrita como ferramenta de autoconhecimento há anos, quanto psicológicas, já que tudo o que ela trouxe era diretamente relacionado às queixas trazidas até ali (indo além delas e demonstrando sua profundidade na vida dela).

Como tal texto era também parte de uma intervenção, não podia ficar só no nivel pessoal comigo admirando o resultado obtido, né? Tinha que trazer isso pra sessão e até aqui esse caminho tem sido bastante valoroso para o seu processo.

Para não me perder entre tantas ideias que estavam vindo na minha cabeça, resolvi anotar no caderno o que eu conseguia perceber e linkar com conteúdos que eu já estudei.

No meio de alguns rascunhos bagunçados a ideia foi tomando forma na minha cabeça e me perguntei:

O que será que eu teria que perguntar a outras atendidas que não tem essa mesma facilidade de articular os pensamentos e sentimentos para chegarmos em algo assim?

Pois eu bem sei que várias atendidas minhas se beneficiariam e muito se eu conseguisse uma forma de sistematizar isso.

E assim comecei a rabiscar.

Eu tenho noção que instrumentos já existem aos montes por aí, mas eu sigo uma abordagem e motodologia que ainda não está totalmente consolidada no Brasil, estamos caminhando e construindo nossa forma de fazer clínica com base na Psicologia Histórico Cultural (PHC) e no Método Materialista Histórico Dialético (MHD).

Ao mesmo tempo, também sei que a vida de alguém não cabe em um único instrumento e nem é essa a minha intenção, mas se eu conseguir fazer algo que vá ajudar a chegar num lugar útil ao processo, eu vou tentar.

Por isso que eu não estudo somente a PHC e o MHD, eu leio de tudo (de ficção e não ficção), consumo arte, me mantenho atualizada naquilo que me interesso e me interesso por uma miríade de coisas que não cabem numa postagem só!

De certa forma foi por isso que esse blog foi criado, pra eu reunir tudo isso em um local público para que outras pessoas possam encontrar mesmo.

Um jardim digital de psicologia em construção.

Vou até colocar isso na página inicial depois 😄, mas deixa eu falar logo do tal instrumento que eu fiz e a sua lógica.

O que vou mostrar nessa postagem já foi usado com a pessoa que atendo, ela concordou em compartilhar e contribuir com essa construção :) então fica aqui também o meu muitissimo obrigada pela confiança!


O INSTRUMENTO (VERSÃO INICIAL)

Abaixo, a versão inicial da entrevista — com 5 eixos e 20 perguntas — que serviu como ponto de partida para o desenvolvimento do instrumento.

Usado em contexto de psicologia clínica online com base na abordagem da Psicologia Histórico-Cultural.

OBJETIVO

Mapear como você tem se sentido nas últimas duas semanas, considerando não apenas os sintomas emocionais, mas também sua rotina, sua sobrecarga, sua rede de apoio e o sentido que você tem atribuído à vida.

O instrumento serve para:

MATERIAL NECESSÁRIO

INSTRUÇÕES GERAIS

Para cada afirmação, assinale a frequência com que você tem vivenciado aquela situação nas últimas duas semanas.

EIXO 1 – ESGOTAMENTO E SOBRECARGA (BURNOUT)

  1. Ao acordar, você já se sente exausta, como se não tivesse descansado?
  2. Você sente que suas tarefas diárias são um "piloto automático" e que você não está presente de verdade?
  3. Pequenas tarefas cotidianas (como arrumar a casa ou atender mensagens) parecem montanhas impossíveis de escalar?
  4. Você tem a sensação de que, por mais que se esforce, nunca dá conta de tudo?
  5. Você perdeu o interesse em atividades que antes lhe davam prazer (hobbies, sair, se arrumar)?

EIXO 2 – ANSIEDADE E SINTOMAS FÍSICOS

  1. Você sente o coração disparado, falta de ar ou tremores sem motivo aparente?
  2. Tem tido pensamentos acelerados e difíceis de desligar, especialmente à noite?
  3. Já teve crises de choro súbitas ou vontade de gritar/explodir?
  4. Sente uma "angústia no peito" ou aperto na garganta com frequência?
  5. Você evita lugares ou situações por medo de ter uma crise de pânico?

EIXO 3 – DEPRESSÃO E FALTA DE SENTIDO

  1. Você tem sentido que a vida perdeu a cor ou o sabor ("viver por viver")?
  2. Tem dificuldade para enxergar um futuro esperançoso para você mesma (não para seus filhos)?
  3. Você já pensou que "não valeria a pena estar aqui" ou que "os outros estariam melhor sem você"?
  4. Você se sente culpada por sentir raiva ou arrependimento em relação à maternidade?
  5. Você tem chorado com mais frequência ou, ao contrário, se sentido "anestesiada" (sem sentir nada)?

EIXO 4 – IDENTIDADE E AUTONOMIA

  1. Você consegue se lembrar de quem você era antes da rotina atual? Sente falta dessa pessoa?
  2. Você faz alguma escolha (por menor que seja) que seja exclusivamente para o seu bem-estar, sem considerar os outros?
  3. Você se sente reconhecida e valorizada no trabalho e em casa, ou apenas "útil"?
  4. Quando pensa em mudança, ela vem acompanhada de desespero ou de planejamento calmo?
  5. Se tivesse 1 hora livre por dia só para você, você saberia o que fazer com ela?

ANOTAÇÕES EXTRAS (OPCIONAL)

Use o espaço abaixo ou o verso da folha para escrever livremente:

PRÓXIMO PASSO

Depois de preencher, traga o IASSE para a sessão. Não precisa se preocupar com perfeição — o importante é que reflita a sua experiência nas últimas duas semanas.

Vamos conversar sobre suas respostas, explorar os padrões que emergirem e pensar juntas sobre os próximos passos no seu processo terapêutico.

Se tiver dúvida durante o preenchimento, anote para conversarmos na sessão.


Por enquanto é isso, eu pretendo usar mais vezes e aprimorar a entrevista para ficar mais generalista, até porquê foi usada em um contexto específico para uma pessoa especifica, mas acho que já parece uma boa base para começar.

Notas
  1. Já que nem todo mundo consegue manter registros constantes, escolho ir pelo nome esporádico justamente para amenizar a pressão de do nada começar a escrever todo santo dia.

#entrevista-estruturada #psicologia-histórico-cultural #rastreio-clínico #recursos-terapêuticos